Eros e chanatos
Filmes de praia no início do Verão
Ao contrário de outras vezes, a minha ausência na semana passada explica-se com facilidade. Além de ter ficado doente (com dores no corpo, temperatura e outros sintomas que prefiro não revelar), parti o ecrã do meu portátil, tendo ficado sem o computador durante alguns dias.
Valeu-me The Power and the Glory, o livro sobre os Campeonatos do Mundo de que falei na última edição do Diga-se de Passagem, que entretanto chegou pelo correio e me tem feito companhia — é óptimo, embora já conhecesse muitas daquelas histórias de Inverting the Pyramid, do mesmo Jonathan Wilson.
Tinha ideia de escrever sobre filmes de praia há já algum tempo. É um «género» de que gosto muitíssimo1. É quase tão prazeroso ver pessoas a veranear no ecrã quanto estar estendido numa toalha depois de um belo mergulho. Ainda melhor é ver um filme de praia, com a brisa nocturna a entrar pela janela, depois de ter passado o dia ao sol, entre o mar e a areia.
E à pergunta «qual a melhor ocasião para escrever sobre filmes de praia?» respondi-me «no início do Verão». E a coisa ia bater certo, domingo passado foi 21 de junho, primeiro dia da estação. Só que já se viu que a vida madrastrou e não foi possível. Não faz mal, ficou para hoje (ainda vou muito a tempo).
Conte d’été
Creio que me apaixonei pelo cinema de Éric Rohmer numa noite de Verão em meados dos anos 90.
Era a altura do 5 Noites, 5 Filmes na RTP2 e o foco nessa semana estava no cineasta francês. Quase de certeza que foi ao ver Conte de Printemps, que, como o nome indica, não é de praia, mas o sentimento foi reforçado com Le Collectionneuse, que se enquadra muito bem no género.
Só depois é que cheguei a Conte d’été. Ou melhor, só depois é que ele chegou a mim. Vi-o logo na altura da estreia em Portugal, na penumbra do Nimas, durante uma tarde quente de Verão. Tornou-se imediatamente num dos meus filmes favoritos. Identificava-me com Mélvil Poupaud — hoje em dia, passados trinta anos, vejo mais os defeitos do que as qualidades do protagonista, mas continuo a adorar o filme.
Uma Pedra no Bolso
O cinema português tem uma longa história de amor com o estio: Uma Rapariga no Verão, de Victor Gonçalves (que ainda não vi); À Flor do Mar, de João César Monteiro (o meu filme português preferido); Guerra Civil, de Pedro Caldas (muito difícil de rever, por causa dos problemas legais com a música); Agosto, de Jorge Silva Melo (que me deixa sempre um pouco frio); Maria do Mar, de João Rosas (uma curta-metragem com pouca areia, mas que apanha muito bem o espírito).
Escolhi Uma Pedra no Bolso, de Joaquim Pinto, pela sua singeleza. Coming-of-age com laivos de melodrama, tudo é tocado em surdina, sem nunca se carregar no traço (perdoe-se-me a mistura de metáforas). E o filme é tanto mais bonito por nunca chamar demasiado a atenção para si mesmo.
Sommarlek
O título deste texto é uma alusão óbvia a Eros e Thanatos, em forma de piada. Mas, se temos mais facilidade em imaginar amores de Verão, a verdade é que a morte nunca anda muito longe das praias — todos os anos morrem não sei quantos jovens no meio das ondas (o ser humano subvaloriza demasiadas vezes a força do mar). E os filmes, como as águas, reflectem essa vertigem.
O rapaz de Um Verão de Amor, título português de Sommarlek (possivelmente «o mais belo dos filmes» de Ingmar Bergman, ele que tem tantos candidatos), não morre afogado; perece nas rochas, vítima de um acidente estúpido, marcando a memória de Maj-Britt Nilsson com uma felicidade inalcançável. Lembra, nesse jogo entre memória, juventude, amor e morte, outro filme, bem diferente na estética e em quase tudo o resto: Summer of 42, de Robert Mulligan2.
Evil Under the Sun
A morte que ronda a estância balnear por onde Hercules Poirot anda a passear o seu fato de banho completo não é natural nem resultado do acaso. Muito pelo contrário, tem mão criminosa (pelo menos uma, quem sabe mais). Nem Death on the Nile, de John Guillermin, nem este Evil Under the Sun, de Guy Hamilton, nos quais o possante Peter Ustinov interpreta o detective belga, são grandes filmes, mas sou capaz de os rever uma e outra vez.
Dá-me gozo seguir investigações de assassinatos debaixo de sóis abrasadores e areias convidativas, talvez por associar leituras de policiais (sobretudo Agatha Christie e Georges Simenon) à languidez das férias grandes de Verão3.
Podia também ir buscar Plein soleil, de René Clément, e The Talented Mr. Ripley, de Anthony Minghella, baseados no mesmo livro de Patricia Highsmith, ou em The Long Goodbye, de Robert Altman, a segunda melhor versão cinematográfica dos romances de Raymond Chandler com Phillip Marlowe, no qual Elliot Gould vai
à praia de fato e gravata, e sempre de cigarro na boca.
Pauline à la plage
Batota!, dirão vocês. Então, começo e acabo com filmes de Rohmer, quando há tantos outros que poderia listar aqui — Bonjour Tristesse, de Otto Preminger (que só de mencionar fiquei com vontade de rever; Il sorpasso, de Dino Risi (que só não consta, porque não é bem um filme de praia); Du coté d’Ourouet, de Jacques Rozier (mas as personagens são tão irritantes); Les vacances de Monsieur Hulot, de Jacques Tati (falta-lhe o cheiro a maresia)? Até poderia citar Jaws, de Steven Spielberg, Some Like it Hot, de Billy Wilder, The Heartbreak Kid, da tão esquecida Elaine May, ou o recente Romería, de Carla Simón, de que gostei tanto.
O que é que se há-de fazer? Para mim, quando penso em filmes de praia, penso imediatamente no Conte d’été e neste Pauline à la plage. Há vários e óbvios pontos de contacto, a começar pela presença de Amanda Langlet, mas o que definitivamente os liga um ao outro é o facto de os adorar com a mesma intensidade.
Umas quantas sugestões
Nos últimos tempos, Stephan Kunze do zensounds tem sido o meu algoritmo, sobretudo no que toca à música mais planante — todos os meses ele faz uma pequena lista dos seus álbuns ambient preferidos (aí está a de Junho) e eu vou logo a correr ouvi-los (e nunca me arrependo).
Como este:
Ou este:
Ou ainda este:
Por hoje é tudo. As palavras são minhas. A revisão é da Beatriz Marques Morais.
Tenham uma boa semana. Até ao próximo Diga-se de Passagem.
Aliás, um dia gostava de escrever e realizar o meu filme de praia. Até já tenho umas ideias apontadas.
Era o filme preferido do meu pai, que explicava o seu fascínio por ter nascido em 1942.
Já escrevi sobre a minha relação com os livros policiais neste texto. E por falar em detectives e mortes na praia lembrei-me também de El problema final, de Arturo Pérez-Reverte.



"last summer" do fred perry é bem bom. O próprio "the surfer" com o cage gostei bastante. O "a scene at the sea" do kitano outro que é alta pérola com mar. Assim de repente tenho estes.
Adoro filmes de praia, principalmente aqueles muito à volta de uma historieta lânguida e com laivos coming-of-age, que eu denominei "filmes paisagem", portanto levo daqui recomendações que fogem um bocadinho ao género :)
Li há umas semanas o Bonjour Tristesse, não sabia que havia filme! Fiquei super curiosa.
Fico contente que já não te identifiques assim tanto com o rapazinho do conto de verão, que ele é um protótipo perfeito dos boy-lixo sensíveis :P