Os meus livros de futebol preferidos
A propósito do Mundial do Canadá, México e EUA
Hoje há motivo para celebração: passado não sei quanto tempo, o Diga-se de Passagem volta a sair a um domingo. Significará o regresso à constância dos primeiros tempos? Provavelmente, não, que a vida e os afazeres têm a mania de se intrometer. Mas saúde-se o feito, de qualquer maneira.

Não ligo aos Campeonatos do Mundo como dantes (o auge da minha atenção terá sido com o de 1994). É improvável que veja a maioria dos jogos, até porque imensos serão demasiado desequilibrados para serem minimamente interessantes (ou talvez o interesse resida na quantidade de golos que as selecções mais fortes possam marcar). Verei os de Portugal, com certeza, e os embates entre as melhores equipas1.
Mas, movido pela «febre» do futebol, encomendei o livro The Power and the Glory, no qual o jornalista inglês Jonathan Wilson conta a história dos Mundiais. Enquanto não me chega a casa, resolvi listar os meus livros de futebol preferidos (por ordem de leitura).
Fever Pitch, de Nick Hornby
Na altura do meu maior desgosto desportivo, provocado por um jogador cujo nome começa por K, obcequei-me com o futebol. Li e reli entradas de blogues, vi documentários (por exemplo, o excelente Les Arbitres, de Yves Hinant e Eric Cardot) e, pela primeira vez na vida, pus-me a ler livros sobre o assunto.
Comecei pelo Fever Pitch, relato da paixão assolapada de Nick Hornby pelo seu Arsenal e das suas idas e vindas a Highbury Park e demais estádios ingleses onde a equipa londrina jogava (um dos momentos mais pungentes é quando Hornby e amigos tomam conhecimento do desastre de Hillsborough, em Sheffield, no qual morreram mais de noventa adeptos do Liverpool2).
Mais tarde, apareceria uma adaptação cinematográfica com Colin Firth no papel principal. Apesar de o argumento ser de Hornby, é mais comédia romântica do que observação das loucuras de um adepto de um clube pouco habituado a ganhar3.
(Já tinha escrito sobre o livro num blogue antigo. O texto está cheio de gralhas, porque ainda não havia Beatriz.)
Brilliant Orange, de David Winner
Chamar brilhante a Brilliant Orange: The Neurotic Genius of Dutch Football parece ou muito preguiçoso ou falho de imaginação, mas, mesmo que esses defeitos caracterizem quem vos escreve, não deixa de ser absolutamente justo. Se me pedissem para escolher um só destes livros, provavelmente seria este.
David Winner pega em sociologia, história, arquitectura, cultura, fotografia4, etc., etc., etc., para explicar as qualidades do futebol holandês, assim como a sua tendência para o insucesso na hora H. Anda mais perto do ensaio (especulativo, lúdico, criativo) do que das biografias a jogadores e treinadores ou histórias de clubes que preenchem as prateleiras sobre desporto nas livrarias portuguesas.
(Também já tinha escrito sobre este noutro blogue antigo. A mesma ressalva em relação às gralhas.)
Inverting the Pyramid, de Jonathan Wilson
Acabei de afirmar que Brilliant Orange era o meu preferido dos livros de futebol, mas a verdade-verdadinha é que só o li uma vez. Já Inverting the Pyramid: The History of Football Tactics, li pelo menos três vezes, e tenho a certeza de que haverá quarta e quinta, talvez mais. Só não é o livro que mais li na vida, por causa dos livros escolares e os de João Bénard da Costa.
Mais do que a história das mudanças tácticas (por si só, muitíssimo interessante), o livro de Jonathan Wilson5 vale pelas biografias daqueles que inovaram o desporto-rei. Entre os quais, encontra-se Béla Guttmann, que, além de ter uma história de vida extraordinária, transformou o futebol brasileiro e, a seguir, o português, para, por fim, lançar uma maldição ao meu clube, que não ganha uma final europeia há mais de sessenta anos6.
(Também foi alvo da minha atenção no blogue antigo anteriormente citado. As gralhas nesse texto são igualmente um problema.)
The Damned Utd, de David Peace
Antes de mais, vi a adaptação realizada por Tom Hopper (cineasta com o qual não vou nada à bola, excepto neste caso) umas três ou quatro vezes. Michael Sheen não terá o carisma e a verve de Brian Clough — treinador tão espirituoso quanto bem sucedido, os ingleses lembraram-se imediatamente dele quando lhes apareceu Mourinho pela frente —, mas é um actor de que gosto muito (foi o Tony Blair da trilogia de Peter Morgan).
Ao contrário dos outros da lista, o livro de David Peace — um James Ellroy mais telegráfico e, se possível, ainda mais absurdamente violento7 — é uma biografia romanceada, dos cinquenta e tal dias em que Clough treinou o Leeds United, equipa que tinha passado os últimos anos a insultar enquanto dirigia o Derby County.
Quando o encontrei nas estantes do meu senhorio em Berlim, há cerca de dez anos, pus-me logo a lê-lo. Fiquei com a ideia de que não o substituiria nas minhas preferências.
Estrela Solitária, de Ruy Castro
Para não me ficar só pelos autores ingleses, incluo Estrela Solitária — Um Brasileiro Chamado Garrincha, que, como o sub-título indica, é a biografia do famoso jogador do Botafogo, grande responsável pela vitória do Brasil no Mundial de 62 (Pelé lesionou-se e não pôde contribuir muito), que morreu prematuramente devido a complicações do alcoolismo que o afectou praticamente toda a vida.
Ruy Castro não precisa de romancear as biografias dos seus visados para as tornar interessantes8. Óptimo contador de histórias, sabe estruturá-las, deixar presságios para glórias e desgraças futuras, mantendo sempre os leitores agarrados, mesmo pelos desvios por que o autor os leva. A figura de Mané Garrincha, herói trágico, presta-se muito bem às qualidades narrativas de Castro.
Menções honrosas
Não fora a vontade de querer ser abrangente e provavelmente teria incluído Soccernomics, de Simon Kuper (talvez em substituição de The Damned Utd). Muito virado para os números e estatísticas, faz pelo futebol não-americano aquilo que Moneyball: The Art of Winning an Unfair Game, de Michael Lewis, fez pelo americano: desmascarar preconceitos e restantes mitos sobre atletas, sucesso desportivo e muito mais. Ou Barça — The Rise and Fall of The Club That Built Modern Football, do mesmo autor, que li no ano passado (numa edição norte-americana com outro título) e escolhi como um dos preferidos de 2025.
Ou então Selvages y sentimentales, com as memórias futebolísticas de Javier Marías (alvo de umas linhas escritas há uns meses), ou o similar (no sentido de que é um escritor «sério» a falar de futebol) El fútbol a sol y sombra, de Eduardo Galeano. Ou Une histoire populaire du football, com que Mickaël Correia estuda o papel do desporto-rei em lutas políticas e demais insurreições. Ou Only a Game?: The Diary of a Professional Footballer, sobre a experiência de Eamon Dunphy enquanto jogador do Millwall nos anos 70.
Se tiverem recomendações sobre livros de futebol, enviem-mas, por favor.
Um par de sugestões
Para compensar a falta de livros de futebol portugueses, aponto para o Substack do António Tadeia (que fala bastante dos «seus» Mundiais na entrevista que me concedeu), onde o jornalista está a acompanhar o Campeonato do Mundo — e os textos sobre a competição estão todos abertos ao público.
E para o Substack da Filipa Santos Lopes, que escreveu um belo texto sobre o fenómeno dos cromos da Panini.
Mesmo antes de começar a gostar de futebol, eu já fazia as cadernetas dos Mundiais — tenho a do México 86 e do Itália 90, para o comprovar —, pelo que o tema me diz muito. Também tenho um texto sobre o assunto, escrito nas vésperas do Mundial de 2010 (não é tão bom quanto o da Filipa, mas foi o que se pôde arranjar).
Por hoje é tudo. As palavras são minhas. A revisão é da Beatriz Marques Morais.
Tenham uma boa semana. Até ao próximo Diga-se de Passagem.
Ontem vi o meu primeiro jogo deste Mundial, o Brasil-Marrocos. Além de ter sido bem disputado, descobri um novo jogador favorito, Ayyoub Bouaddi, que, aos 18 anos, já joga como um dos melhores do mundo (é uma mistura entre Sergio Busquets e Andrés Iniesta).
O próprio Hornby fala sobre o impacto da notícia num óptimo texto que escreveu sobre o seu e outros livros de futebol (a que fui dar, há uns dias, quando já estava a planear escrever esta newsletter, por causa de uma note do Marcelo Orozco).
Ao ler sobre as façanhas de Michael Thomas em Anfield, muito antes de ser alvo de gozo do Terceiro Anel do Estádio da Luz — um golo dele deu o campeonato ao Arsenal em 1989 —, sonhei que o Benfica ainda podia dar a volta àquela época de má memória. Não aconteceu. Felizmente, o ano seguinte traria muitas alegrias.
Dá grande destaque ao fotógrafo Hans van der Meer, sobre o qual já me debrucei aqui há atrasado.
Autor, entre outros, de Angels with Dirty Faces, sobre o futebol argentino, Names Heard Long Ago, sobre o futebol magiar, e The Barcelona Legacy, sobre Pep Guardiola e José Mourinho, inimigos figadais saídos do mesmo caldinho cultural.
Aparentemente, a história está mal contada. Mas, já se sabe, isto das superstições às vezes tem tanta ou mais importância do que a verdade ou a racionalidade.
Ainda li Nineteen Seventy-Four, a primeira entrada do Red-Riding Quartet (da qual Mark Fisher era grande apreciador e que teve uma adaptação televisiva aqui há década e meia). Mas Nineteen Seventy-Seven derrotou-me: tive de parar a meio, temendo o que poderia acontecer à minha sanidade mental.
Li o excelente O Anjo Pornográfico sobre Nelson Rodrigues e o igualmente bom Chega de Saudade, sobre João Gilberto e o advento da bossa nova. Falta-me a biografia de Carmen Miranda — leio um dia destes, sem falta.


O Italian Job do Gianluca Vialli é um belo livro.
Muito obrigada pela gentil recomendação, João! Para troca, deixo mais dois ou três dos meus livros favoritos sobre futebol, na esperança de que não te tenham ainda passado pelas mãos: "Football Against the Enemy", do já mencionado Simon Kuper, "Grada Popular", de Ignacio Pato, e "11 Ciudades", de Axel Torres. Tu a fugir aos autores ingleses, eu sempre perdida por entre espanhóis.