As minhas pianadas
E um pedido especial
Esta ia ser mais uma semana sem Diga-se de Passagem até decidir deixar esta gracinha — o que vale é que já me penitenciei por todas as falhas (passadas e futuras) na última edição da newsletter.
A verdade é que foi um fim-de-semana ocupado. Na sexta-feira, fui festejar o meu aniversário, pelo que estive meio K.O. no sábado. E no domingo, além de ter tocado piano na audição de final de ano da Lusomusic, a minha escola de música, cantei com o coro da dita duas vezes, uma antes do almoço, outra depois.
Fez seis anos que a Beatriz me ofereceu um teclado MIDI (quando fiz quarenta anos). Conseguia divertir-me a criar loops e música desconchavada, mas cedo percebi que ajudaria imenso se aprendesse a tocar um instrumento. O mais óbvio era o piano, até pelas semelhanças com o pequeno teclado de vinte e poucas teclas que já tinha.
Fazer música e tocar piano tornaram-se os meus projectos da pandemia. Em finais de 2020, adquiri um teclado barato e manhoso (as teclas não respondiam à intensidade do toque, o que não permitia aprender convenientemente) que depressa foi preciso substituir por um melhorzito (entretanto, esse já foi trocado por outro ainda mais melhorzito).
Em 2021, inscrevi-me na escola de música e comecei a ter aulas com o André Gomes (sigam-no no Instagram), que, além de meu professor, é um óptimo músico de jazz. Tenho dificuldade em perceber a minha evolução — tenho gravações passadas, só que nunca me dá para ouvi-las —, mas tenho a certeza de que existiu.
Apesar de odiar falar em público, achava, não faço ideia porquê, que me ia safar muito bem a tocar ao vivo. Esteve para acontecer na audição de Natal em 2022, mas calhou ser no dia da final do Mundial do Qatar e não dava jeito nenhum. Em todas as audições seguintes, apareceu uma desculpa qualquer para me impedir de participar.
Até ao Natal de 2024. Já relatei a experiência aqui. Fui tocar o belíssimo standard «I’m confessin’», do qual Thelonious Monk tem uma versão incrível. Bloqueei, o André teve de se sentar a meu lado como fez com os seus alunos mais pequenos e se cheguei ao fim foi a muito custo. Ou seja, passei uma vergonha.
E ainda bem. Que no Natal seguinte, ao aceitar que me ia enganar uma, duas, três vezes, mais, correu bem melhor. Enganei-me uma, duas, três vezes, mais, a tocar «Jazz Exercise n.º 2», de Oscar Peterson, mas não bloqueei, nem precisei de ajudas.
No início deste ano, prometi(-me) que ou tocaria o «Fairytale of New York» no Natal ou «New York Herald Tribune» no Verão. Se a promessa da canção dos Pogues se mantém até Dezembro, a da música de Martial Solal (para a banda-sonora de À bout de souffle, de Jean-Luc Godard) concretizou-se. Ontem.
Deixo-vos o vídeo da minha prestação (filmado, obviamente, pela Beatriz1). Enganei-me umas quatro ou cinco vezes e hesitei outras tantas, mas como é jazz a coisa passa como intencional. Se quiserem ver como se toca a sério, sigam este link (o pianista é Harry Nicholson, autor do arranjo).
O tal pedido especial
Conheci o Nuno Simões há uns bons anos através de amigos em comum. Entretanto, tínhamos perdido o contacto e só o reatámos quando o convidei para ler o Diga-se de Passagem. O Nuno tornou-se dos leitores mais assíduos da newsletter e fomos retomando as nossas conversas, sobretudo à volta da fotografia.
Embora tenha algum pudor em mostrar a sua obra, o Nuno é um excelente fotógrafo (como podem comprovar aqui, aqui e aqui).
Agora meteu-se numa empreitada que me parece tão louca quanto maravilhosa — criar uma galeria de fotografia em Souto Bom, uma «aldeia perdida da Serra do Caramulo, concelho de Tondela, com cerca de 30 habitantes».
Para tal, o Nuno precisa de dinheiro para cobrir as obras e demais despesas inerentes à transformação do espaço que lhe foi concedido numa galeria de fotografia. Pelos seus cálculos, andarão pelos 2000 euros.
Através da campanha de crowdfunding, para a qual contribuí com todo o gosto2, o Nuno já garantiu quase metade desse valor. Estou certo de que por mais curta que seja a vossa contribuição, ele ficar-vos-á imensamente grato.
Eu já me imagino a viajar até Souto Bom para ver uma exposição — cada vez mais gosto de fotografia e sinto que faltam espaços para a mostrar em Portugal, quanto mais fora das cidades grandes.
De qualquer forma, o Nuno explica isto tudo muito melhor do que eu, pelo que vos aconselho a seguir o link da campanha. Também já há Instagram, onde se pode «visitar» o local da futura galeria.
Por hoje é tudo. As palavras são minhas. A revisão é da Beatriz Marques Morais.
Tenham uma boa semana. Até ao próximo Diga-se de Passagem.
Podia juntar as canções do coro, também gravadas pela Beatriz, mas não vos quero maçar em demasia.
Como dizem os anglo-saxónicos, pus o meu dinheiro onde estava a minha boca, ou, neste caso, os meus dedos.



Olá João, gostei muito deste artigo. Comprámos um piano acústico há pouco tempo e o meu marido começou a tocar usando o flowkey. No entanto, como eu também toco e tenho uma professora (a Maria Ana Guimarães que é fantástica ) convenci-o a ter aulas com ela (eles estão numa aula neste momento). Fez toda a diferença. Tocamos porque é um desafio e nos dá prazer. Por isso, continua, não desistas. E obrigado por partilhares o teu exemplo. Um abraço.