Erros que me envergonham
E outras penitências
A ausência da semana passada não se deveu propriamente a preguiça. A onda de calor arrastou-nos para fora de Lisboa, provocando uma alteração de rotinas que tornou muito difícil a escrita da newsletter domingo ou segunda-feira.
Podia tê-lo feito noutro dia? Podia. Mas, além de me dar muito mal com o calor (tenho a temperatura corporal de um nórdico e sofro imenso quando as mínimas sobem acima dos 21, 22 graus), estou a iniciar a escrita de um guião e não me quis distrair, nem perder mais um dia depois das «férias» compulsivas1.
Por essas e outras razões (entre as quais, o receio de não conseguir manter a regularidade nos próximos tempos), tenciono interromper o Diga-se de Passagem durante Agosto e primeira quinzena de Setembro, voltando depois com toda a força e motivação.

Em jeito de penitência pelas ausências passadas e futuras, resolvi expor alguns dos erros de escrita (e de fala) mais grosseiros que fui cometendo ao longo da minha vida (havia de ser na de quem?).
Não quis ficar pelos mais leves (ou discutíveis), como a minha tendência para acrescentar hífens e «c» a tudo o que mexe (casa-de-banho, banda-sonora, contracto, práctica) ou a incapacidade em escrever «privilegiado» à primeira, à segunda ou à terceira (desta vez até acertei, talvez tenha decorado finalmente).
Como verão pela lista que segue, certos erros são imperdoáveis. Por si só deveriam ter ditado o fim de qualquer veleidade de escrever. E creio que não têm aparecido mais erros deste calibre graças ao corrector ortográfico (com que me irrito tantas vezes, por me forçar a escrever com o Acordo de 90) e à revisão atenta da Beatriz.
Há-des
Valha a verdade que não costumo escrever «há-des» a não ser para explicar que não costumo escrever «há-des» em circunstâncias normais. Mas já é suficientemente mau que me saia da boca de vez em quando. Quem é que eu quero enganar? Quase sempre que vou para dizer «hás-de» expilo um «há-des». O pior é que estou perfeitamente consciente de que não o devo fazer — ouço sempre uma vozinha condescendente a explicar-me que Hades é o deus dos infernos. Pois é, mas eu não consigo evitar cair na asneira.
Sonata de Outuno
Uma vez levei para a faculdade uma cassete com um filme de Ingmar Bergman que tinha gravado da televisão, para emprestar já não sei a quem. Depressa me informaram que tinha escrito mal o título do mesmo. Não era Sonata de Outuno e sim Sonata de Outono. Diria que foi mais um lapso do que um erro, como se o meu cérebro tivesse feito um curto-circuito, confundindo Outono e Outubro. Mas o episódio esvaziou um pouco o orgulho que sentia por ter tão refinado e requintado gosto cinéfilo.
Há/à
Deixei este erro no meu primeiro blogue, o Fastio, mesmo depois de me dar conta dele (por masoquismo ou para esconjurar2 futuros enganos, quem sabe). No post de 8 de Setembro de 2003 intitulado Dias lê-se: «À dias que parece que a vida não é aqui/Há dias que parece que a vida não é aqui». Passados mais de vinte anos, não sei exactamente onde pretendia chegar com a justaposição das frases (o «à» seria de duração? provavelmente) nem como não me apercebi de que a primeira simplesmente estava errada.
Seria-o
Sempre tive problemas com o condicional e com o futuro, mas ter escrito «seria-o» numa crítica do Público é das minhas maiores vergonhas. Ninguém me corrigiu, vá lá, pouca gente deve ter lido o texto. Ainda fui a tempo de pedir que o corrigissem na edição online (lá passou a ser «sê-lo-ia»), mas ficou para sempre impresso nas folhas do jornal (o que vale é que só eu, o Público e a Hemeroteca é que devemos ter provas disso).
Trazer/levar
Este também não é de escrita. Ou não é só de escrita. Só há relativamente pouco tempo (uns dez anos) é que aprendi que havia diferença entre as palavras «levar» e «trazer», visto que as usava como se fossem sinónimas. E não são. Ou são tão sinónimas como «ir» e «vir» — levamos algo daqui para ali e trazemo-lo de lá para cá, nunca o contrário. Aprendi, como quem diz, que ainda me baralho.
Um dos que tem...
Este é outro erro com que nunca atino, mesmo que saiba a forma correcta. Quando escrevo «um dos que» vou sempre para o singular e não para o plural como deveria. Pelos vistos, há excepções à regra e posso escudar-me nelas. Mas tenho outros erros para a troca como «fim-de-semanas» em vez de «fins-de-semana», «quatorze» em vez de «catorze» e o clássico acrescentar de uma sílaba a «feministas» («femininistas») ou «minudências» («minudicências» — este é pior).
Por hoje é tudo. As palavras são minhas. A revisão é da Beatriz Marques Morais.
Tenham uma boa semana. Até ao próximo Diga-se de Passagem.
Hei-de falar desse projecto quando estiver mais encaminhado. Em relação à minha primeira longa-metragem Anda daí, farei um ponto de situação muito em breve.
Que tentei mesmo agora escrever com «x».


Achei piada aos erros, e gostei daquele ¨expilo¨. Vá de férias e quando regressar talvez ainda traga alguns erros a tiracolo porque dúvidas leva-as sempre consigo. Até depois, então.