Sou um espectador amalucado
Ou se calhar os outros é que estão mal
Sei que estou sempre a prometer, mas para a semana é que sai um texto maiorzito (não será necessariamente sobre a morte, como tenho andado a anunciar, embora tenha a palavra «morreram» no título).
Nesta edição do Diga-se de Passagem continuo, pois então, nas newsletters mais curtas, que me têm dado prazer a escrever.

Já não me lembro da última vez que fui ao cinema sem mandar calar alguém.
Estou a exagerar: lembro-me perfeitamente, foi na semana passada, mas infelizmente a afirmação está mais perto da realidade do que do despropósito.
Tenho um «chiu!» pronto ao mais leve sussurrar. Se tivesse carta e conduzisse seria o equivalente a buzinar a quem quer que se me atravessasse à frente (eu que abomino o barulho das buzinas, banda sonora constante da minha cidade).
No outro dia aconteceu-me uma coisa insólita e penso eu que inédita. Mandei calar uma pessoa conhecida. Pior ainda: mandei-a calar extemporaneamente: o filme mal tinha começado, ainda estávamos nos primeiros cartões do genérico inicial.
(Só percebi que conhecia a pessoa conhecida bem mais tarde e aproveito este texto para pedir novamente desculpa.)
Uma história de violência
Quando era mais novo era incapaz de mandar calar quem quer que fosse. Lembro-me de ter ido ver a versão longa de O Vale Abraão ao Nimas em princípios deste século e de ter levado com um casal de velhotes a queixarem-se do filme do início ao fim, sem que eu tenha demonstrado desagrado.
Posto isto, tenho ideia de que nessa altura os espectadores de cinema se comportavam melhor. Falava-se menos, tossia-se menos, mexia-se menos em papéis de rebuçado, não havia telemóveis para iluminar a sala toda, nem para atender e dizer «agora não dá para falar, estou no cinema», frase que raramente termina o telefonema.
Ou então era eu que era mais tolerante ao barulho dos outros (apesar de ouvir bem melhor do que actualmente).
Por exemplo, não mandei calar a senhora que estava ao meu lado no Saldanha Residence a ver Charlie Wilson’s War e a comentar o Tom Hanks com uma amiga (não foi apenas um aparte, foi o filme quase todo). Mas umas semanas depois fiz a minha primeira vítima — uma criança que não parava de fazer perguntas ao pai durante o Live Free or Die Hard (de que guardo boas memórias) no Monumental.
No entanto, não foi aí que os meus «chius» passaram a ser recorrentes. Devo ter tentado uns em Nova Iorque quando a plateia se pôs a rir do Johnny Guitar no Film Forum, mas pouco mais.
Só comecei a ser o espectador amalucado que sou hoje numa sessão do IndieLisboa de O Som ao Redor, de Kleber Mendonça Filho (não estou a inventar, é mesmo esse o título). Estava a gostar imenso do filme (que, aliás, é óptimo), quando, às tantas, um grupo atrás de mim começa a dizer mal do mesmo, que aquilo nunca mais acabava, que era chato, a litania do costume.
Ainda aguentei uns minutos, mas, como não paravam, passei-me: insultei-os de alto a baixo, perguntando, entre outras coisas, porque é que não saíam da sala (foi no São Jorge) se não estavam a gostar. Ainda tiveram a lata de ficar ofendidos. Podem não saber, mas estragaram-me a experiência — achei durante uns tempos que a parte final de O Som ao Redor não era tão boa como a primeira (estava obviamente enganado).
A partir daí, all hell broke loose, como se costuma dizer. Agora uso tanto o «chiu!» que até já me ignoram, como me aconteceu numa das vezes que fui ver o Bringing Up Baby à Cinemateca. Vá lá que é impossível estragar a obra-prima de Howard Hawks — não há mau-humor que resista ao Major Applegate.
Até já mandei calar pessoas em concertos (os Slint estavam a tocar «Good Morning, Captain» e havia um casal espanhol perto de mim, portanto estou desculpado dessa). Só me coíbo em peças de teatro, por motivos óbvios, apesar de já ter tido uma experiência bastante desagradável com outro casal de velhotes (no entanto, usei esse momento para um diálogo do Anda daí).
Uma certa tendência obsessiva-compulsiva
A minha maluquice na sala de cinema não se resume a mandar calar toda a gente e mais alguma.
Também tenho o hábito de me sentar quase sempre no mesmo sítio. Em cada cinema tenho o meu lugar. Bem, nalguns, não é bem um lugar, é uma zona onde gosto de ficar. Noutros, como no Nimas, é mesmo uma cadeira onde tenho de ficar, se não a coisa não corre bem — não vou divulgar qual, para não ma roubarem.
Esta minha tendência obsessiva-compulsiva também se revela na Biblioteca Nacional, que tenho frequentado nos últimos meses. Acabo quase sempre por ficar numa de duas mesas na Sala de Leitura Geral — na M7 ou na J7, se me quiserem ir visitar.
Uma sugestão
Ainda falta quase uma semana, mas mesmo que, ao contrário de hoje, o Diga-se de Passagem saia no domingo já não será a horas de sugerir a sessão de Não Desviar o Olhar no IndieLisboa — é às 18h00, no Grande Auditório da Culturgest.
O filme, realizado por Júlio Alves e co-concebido pelo meu amigo Luís Mendonça, retrata1 quatro críticos de cinema — Luís Miguel Oliveira, Inês Lourenço, Vasco Câmara e Ricardo Vieira Lisboa —, que falam de cinema, da sua cinefilia, de experiências em sala (não sei se sobre calar outros espectadores), etc. e tal. De seguida, haverá conversa com os mesmos, moderada por Carlos Vaz Marques.
À mesma hora, mas no São Jorge, vai passar Dois e Um Gato, curta-metragem de Patrícia Saramago, que faleceu precocemente no final do ano passado. Tenho pena de não poder ir ver, mas haverá outra sessão às 21h30 no Cinema Fernando Lopes (dentro da Universidade Lusófona, no Campo Grande) dia 6 de maio.
Por hoje é tudo. As palavras são minhas. A revisão é da Beatriz Marques Morais.
Tenham uma boa semana. Até ao próximo Diga-se de Passagem.
Retrata, mas tenho ideia de que não são filmados. A imagem é preenchida, ao que julgo, pelos seus filmes de eleição.


Numa das cenas finais do Drive My Car, a da peça a ser representada no teatro, a actriz que interpreta a personagem Sonya na peça de Tchekhov fá-lo em linguagem gestual, mais exactamente Língua de Sinais Coreana. Quem já leu O Tio Vanya sabe que é uma fala impactante e acho que neste caso o facto de ser proferida sem som aguça ainda mais a atenção do espectador. Pois é nesse preciso momento que toca alto e bom som nas primeiras filas aquele toque universal do iPhone, aquele que toda a gente conhece e que penso existir uma lei que obriga os proprietários daquela marca específica a manter. Sorte que o senhor só levou uns dois minutos a achar o telemóvel e a desligar aquilo...
Quem fala e faz barulhos numa sala de cinema são as pessoas que estão ali para se distrair e passar tempo como quem vai "passear" a um centro comercial. Muitas vezes compram o bilhete sem saber que filme vão ver, sem ter lido absolutamente nada sobre o filme. Estão no seu direito mas isso para mim é inconcebível. Quem como eu gosta tanto e tem tão poucas oportunidades de ir ao cinema, vai em estado de excitação e expectativa e aproveita todos os momentos. Caladinho.
Nimas H2 ou por aí.
Hoje em dia, já não sou um assíduo cinéfilo mas, na minha juventude chegava a ver três filmes por fim de semana. Era de facto uma coisa que me arreliava era os comentários durante a sessão, várias vezes mandei calar alguns espectadores mais mal comportados.