O regresso dos Boards of Canada
E o crítico musical que é dos grandes pensadores do nosso tempo
Se o prometido é devido, encontro-me mais uma vez em dívida. Ao contrário do que asseverei na última edição do Diga-se de Passagem, não haverá texto maiorzito com «morreram» no título (como já puderam comprovar).
Ao invés, cá vai de novo uma newsletter mais curta, só para não vos faltar. Os motivos até são positivos — uma simpática viagem ao Porto (ainda que perturbada pelos festejos do F.C.P.) e vários afazeres com o Anda daí.

Tomorrow’s Harvest, o último álbum dos Boards of Canada — dois irmãos escoceses com apelidos discordantes —, já leva treze anos, pelo que o seu regresso, embora ansiado, é algo inesperado.
A verdade é que começaram a surgir uns rumores aqui há umas semanas e depois apareceu este vídeo no canal de YouTube da banda que veio dissipar quaisquer dúvidas: Inferno, o novo disco dos BoC, vai sair no final deste mês, no dia 29.
No meu last.fm, os Boards of Canada já aparecem nos lugares cimeiros, sobretudo agora, que tenho andado a reouvir a discografia toda, não só os álbuns como os EPs, que conhecia menos bem (alguns nunca tinha ouvido).
Mas durante muito tempo desconfiei deles. Nem sei dizer bem porquê. Só os conheci com The Campfire Headphase e acho que sempre os culpei por não ter conseguido adormecer no Sud-Express quando fui ter com um amigo a Paris, em finais de 2005.
É que a música dos BoC, apesar de ténue e sonhadora, é unsettling. Sinistra, como diz Simon Reynolds neste belo texto sobre Music Has the Right to Children, o primeiro disco dos escoceses.
O futuro já não é o que era
Já me ofereceram Futuromania, o até agora último livro de Reynolds (também autor do texto mais bonito que já li na Internet), há uns tempos, talvez ano e meio. E à conta do artigo sobre os BoC deu-me finalmente vontade de lê-lo.
Em boa hora. Apesar de ser uma colectânea de textos escritos ao longo da sua carreira como crítico musical (muitos são de finais dos anos 80, inícios dos 90), o «desejo de futuro» que sempre o guiou e o levou até à electrónica mais dançável e popular, como também à mais esquisita e experimental, torna o todo coeso.
O desejo, às tantas, foi-se transformando em nostalgia. Reynolds nunca usa a frase «the future ain’t what it used to be», que li um dia num póster em Berlim e que poderá ter sido ou não inventada por Yogi Berra, um jogador de beisebol, mas esse sentimento perpassa pelos seus textos mais recentes — é como se estivéssemos na timeline errada.
A par de Mark Fisher, de quem era próximo, Simon Reynolds é o grande pensador da letargia que afecta a cultura ocidental há quase trinta anos. Juntos trouxeram o conceito de hauntologie, cunhado por Jacques Derrida, para as artes, sobretudo para a música. O fantasma que (n)os assombra é do futuro que em tempos pareceu tão prometedor e se esboroa a cada momento.
De certa forma, Futuromania é uma resposta a Retromania, o livro que Reynolds escreveu há mais de uma década — saiu ainda antes de Tomorrow’s Harvest —, e diagnostica muito bem a doença dos nossos tempos: a completa estagnação da cultura que se vai repetindo e regurgitando ciclicamente. Aliás, o livro só não é actual, porque a realidade o ultrapassou em larga escala.
Um dia hei-de escrever mais exaustivamente sobre a restante obra de Simon Reynolds. Tenho quase todos os seus livros aqui em casa. Neste momento, só me deve faltar o próximo, Living in a Dream, que está para sair perto do meu aniversário em julho (se alguém mo quiser oferecer, sinta-se à vontade).
Não demorarei tanto tempo a pegar nele, uma vez que o tema me interessa muitíssimo: é sobre shoegaze, um dos meus géneros predilectos (se não o), sobre o qual já escrevi em tempos.
Relíquias do passado
O texto de Reynolds sobre os Boards of Canada levou-me a dois filmes institucionais que traumatizaram não só o crítico como os membros da banda e incontáveis miúdos britânicos.
Do primeiro, Dark and Lonely Water, até já falei aqui. É sobre os perigos que a água escura e solitária esconde. A narração de Donald Pleasance, que a personifica, é perfeitamente assustadora. Mas ao menos a história acaba em bem.
O que não se pode dizer de Apaches, uma espécie de Final Destination infantil, em que seis crianças morrem das maneiras mais cruéis para demonstrar que brincar no campo (e continuar a brincar mesmo quando todos os teus amigos andam a morrer) pode ser muito arriscado.
Por hoje é tudo. As palavras são minhas. A revisão é da Beatriz Marques Morais.
Tenham uma boa semana. Até ao próximo Diga-se de Passagem.


sempre que vejo uma recomendação de música por aqui tenho de ir logo ouvir. que agradável surpresa os BoC. *continuarei a ouvir enquanto me aventuro nos outros textos que são referenciados acima*
Das melhores notícias musicais, em 2026. Estou muito entusiasmada. E sobre os livros, já tinhas recomendado o Retromamia do Reynolds, que eu devorei depois de ter escrito sobre o tema do futuro ser cancelado. Vou apostar no Futuromania, depois deste teu texto!