O paradoxo da distribuição de cinema
E porque é que o passa-palavra já não funciona
Continuando na senda da última edição, o Diga-se de Passagem de hoje será curto e grosso.
É uma maneira de não vos falhar completamente, num momento em que estou com dificuldade em escrever textos mais elaborados1. Mas ponho-me a pensar: será que vocês, leitores, preferem esta versão reduzida da newsletter?
Digam de vossa justiça, que gostava mesmo de saber. No futuro, até posso ir intercalando textos maiores com outros mais pequenos.

O meu amigo Daniel Pereira, que, entre outras coisas, também é o produtor do Anda daí, a minha primeira longa-metragem, ficou decepcionado com a recepção de Nino, o filme francês que a sua The Stone and the Plot está a distribuir.
Está a ter menos espectadores do que ele esperava e muito menos espectadores do que ele acha que merecia — concordo com ele: é um filme bonito, singelo e comovente; com potencial para agradar à maior parte das pessoas2.
Diz o Daniel, e muito provavelmente com razão, que há uns vinte anos, quando os filmes ficavam em sala no mínimo três ou quatro semanas, Nino teria ganhado naturalmente espectadores através do passa-palavra3.
Apesar de ter tido atenção da imprensa, como não é de uma realizadora badalada — Pauline Loquès é estreante nas longas — nem tem actores consagrados (quer dizer, andam por lá Jeanne Balibar e Mathieu Almaric, em papéis secundários), precisaria desse tempo para encontrar o seu público.
O paradoxo da distribuição e exibição
O problema de Nino e de muitos outros filmes que teriam a ganhar com maior paciência dos exibidores é que a maneira como se distribui cinema em Portugal impossibilita-a.
Em nenhuma altura se estrearam tantos filmes como agora. Na maior parte das semanas é à meia-dúzia, nas outras é quase o dobro. E, paradoxalmente, nunca houve tão poucas salas e espectadores.
Neste preciso momento, estão em exibição uns quatro ou cinco filmes que tenho vontade de ver — além de Nino, Los domingos, de Alauda Ruiz de Azúa, Romería, de Carla Simón, Entroncamento, de Pedro Cabeleira, I Am Martin Parr, de Lee Shulman, e o ciclo «Shimizu Tardio» (de que falarei nas sugestões)4.
E entretanto já desapareceram Dossier 137, de Dominik Moll, e Historias del Buen Valle, de José Luis Guerín, sem que pudesse vê-los.
Claro que já não vou tantas vezes ao cinema como antigamente. Posso atribuir o facto à minha inércia, aos horários complicados que obrigam a um Tetris, jogo no qual nunca fui bom, mas acho que também há uma certa «fadiga da escolha».
A oferta é tanta que confunde e paralisa. Quero ir ver este e aquele filme e aqueloutro e acabo por os perder a todos. Alguns talvez veja ainda em casa, nos serviços de streaming, quando estiver a elaborar a lista de melhores do ano. Muitos esquecerei simplesmente.
E o meu filme?
No meio disto tudo, temo pelo Anda daí.
O filme está quase acabado, falta finalizar o som, e a música está praticamente feita. Contamos apresentá-lo num festival antes de mais nada, pelo que ainda não conseguimos avançar qualquer data para a estreia em sala.
Mas quando finalmente se estrear o que acontecerá? Será engolido no meio das inúmeras estreias da altura? Passará por aí despercebido, sem ninguém dar por ele? Eu quase não tenho currículo e os meus actores não são grandes estrelas, apesar de serem conhecidos da televisão, do cinema e do teatro, portanto é o mais provável.
Espero sinceramente que não. O Anda daí não vai ter muito mais do que 80 minutos (vivam os filmes pequenos!) e, mesmo à vigésima quinta vez, continuo a sentir que o tempo passa depressa ao vê-lo.
Até já propus ao Daniel um slogan para atrair espectadores — «Isto passa num instante.»
Uma sugestão
Vejo-me obrigado a mencionar e a elogiar o Daniel uma segunda vez.
Uma semana depois da estreia de Nino, ele e o Miguel Patrício lançaram-se ao ciclo «Shimizu Tardio», que conta com cinco dos filmes finais do cineasta japonês Hiroshi Shimizu.
O Som do Nevoeiro/Kiri no oto e Imagem de Uma Mãe/Haha no omokage já tinham passado nos ciclos dos «Mestres Japoneses Desconhecidos», concebidos pela dupla (também responsável pela retrospectiva integral de Kinuyo Tanaka).
São duas obras-primas absolutas (e meço bem as minhas palavras), a que se juntam agora O Idiota Sentimental/Ninjô Baka, A Dançarina/Odoriko e Crianças à Procura de Mãe/Haha o Motomeru Kora.
Ainda não tive oportunidade de ver o primeiro, mas o último se não é uma obra-prima absoluta para lá caminha.
Deixo-vos o trailer do ciclo, montado pelo Diogo Vale (que é também o montador do Anda daí):
Não percam a oportunidade de ver estes filmes. Se der, vejam os cinco. Estão em exibição pelo menos até quarta-feira, mas devem permanecer mais uma semana.
Por hoje é tudo. As palavras são minhas. A revisão é da Beatriz Marques Morais.
Tenham uma boa semana. Até ao próximo Diga-se de Passagem.
Afirmei aqui há umas semanas que Abril ia ser um mês dedicado à morte, mas tive de passar a tanatofobia (e a tanatofilia) para Maio.
Se fosse faccioso (especialmente em dia de derby como hoje), escreveria que o insucesso de Nino se deve ao símbolo do Sporting Clube de Portugal que se vê às tantas na entrada de uma casa.
Ainda me lembro do orgulho que senti ao vislumbrar o galhardete do Benfica no In the Name of the Father, assim como me alegrou a recente aparição de uma camisola vintage do tempo de Eusébio na perseguição final de O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, mesmo que esteja de costas meio voltadas com o meu clube de coração.
Teria escrito boca-a-boca, não fosse um outro amigo se ter insurgido contra o termo, que considera apenas adequado a nadadores-salvadores, preferindo-lhe o espanhol «boca a oreja». Tentámos explicar-lhe que boca-a-boca continha uma elipse, que a orelha entre as bocas está implícita, o que não o demoveu. Encontrei, então, a terceira via do passa-palavra (se tivesse ido pelo inglês, também poderia ter escrito palavra-de-boca).
Esqueci-me de Mektoub, My Love: Canto Due, de Abdellatif Kechiche.


Este texto é como o filme então - não o senti mais curto. Não no sentido em que me aborreceu, mas no sentido em que tinha sumo o suficiente :)
Gostava de não ter um papel ativo na dimunuição de espectadores, mas já não sei quando foi a última vez que vi um filme de adultos no cinema. Pergunto-me se as novas gerações nos estão a substituir adequadamente, a nós que dantes íamos ver cinema, e tendencialmente cinema de autor, e agora ficamos em casa a ver o Filmin com crianças adormecidas nos braços.