Música para pastar
E relaxar na cidade
Nas últimas duas semanas estivemos de férias na zona de Mira, onde há mar e campo (e muito vento)1, um dos motivos para a irregularidade da newsletter, que saiu duas vezes à terça-feira.
Entretanto, estamos de volta a Lisboa (e às buzinas e às ambulâncias e ao trânsito e à poluição e a outras delícias do género) e volto a publicar a uma segunda, que, ao contrário do suposto domingo, tem sido o dia da publicação nos últimos tempos. É o que é e não vale a pena contrariar.

Para não me reabituar imediatamente ao stress citadino, formulei uma playlist2 para manter, durante mais uns dias, a sensação de estar longe de Lisboa. (Quer dizer, já tinha vontade de fazer esta compilação com música pastoral3 há algum tempo.)
Como é extensa — é para se ouvir com calma e paciência —, decidi estruturá-la como uma pequena viagem: começa nas montanhas, passa por jardins, atravessa florestas, percorre aldeias idílicas e desagua nos mares.
Montanhas e vales
(Gas, Brian Eno e Franz Liszt)
Embora tenha uns laivos de música clássica ali ao início, o género mais recorrente da playlist é o ambient, muitas vezes a roçar o new age. Como escrevi há um mês, andei a ler Futuromania, de Simon Reynolds, e um dos textos do livro, originalmente publicado no Resident Advisor, é exactamente sobre a música feita na fronteira entre esses dois estilos4.
Pássaros e jardins
(Ralph Vaughan Williams, Maurice Ravel e Lili Boulanger)
Fui dar a Vaughan Williams pela mão de Rob Young — o seu Electric Eden, sobre a folk inglesa (num sentido muito lato), é outro excelente livro de música. Ravel e Boulanger são de outra facção, mais próxima de um impressionismo musical, que também se adequa extraordinariamente bem a incursões pela natureza.
Bosques e florestas
(Robert Schumann, Isabel Pine e Hiroshi Yoshimura)
A música pastoral é muitas vezes composta e tocada nas cidades grandes, onde o único contacto com a ruralidade são os passarinhos que se ouvem nos altifalantes dos supermercados climatizados (estou a exagerar para o efeito: há imensas aves a passarinhar por Lisboa, ao fim da tarde é uma chilreada doida).
Campos e sinos
(Boards of Canada, conde-barão, Virginia Astley e Sétima Legião)
Mas há música que só pode ter sido feita longe dos centros urbanos. Os Boards of Canada com um pé nas encostas escocesas, Virginia Astley a fazer vibrar os sinos das igrejas, a Sétima Legião a trazer cheiro a estrume das aldeias perdidas de Portugal (o conde-barão, que é eu, destoa dos outros).
Rios e mares
(Anatoly Lyadov, Alva Noto e Ryuichi Sakamoto, Green-House, Nuno Canavarro e Celer)
Nesta coisa da música instrumental, os títulos são muito, mas muito importantes, muito mais importantes do que nas canções cantadas. Sem eles ficaríamos à deriva. São eles que contam a história toda: trazem-nos a placidez dos lagos, a correnteza dos rios, a humidade da costa e as profundezas dos mares.
Duas sugestões
No fim das nossas férias, passámos (e passeámos) pelo Porto e, como não podia deixar de ser, fomos à exposição de Vivian Maier no Centro Português de Fotografia (que, só agora ao pesquisar, percebo que é a antiga Cadeia e Tribunal da Relação do Porto, onde Camilo Castelo Branco esteve preso).
Valeu muito a pena. Diria mais: vale por si só uma visita à Invicta. Cada vez gosto mais de exposições de fotografia5 e esta é das boas.
Como tenho estado fora, esqueci-me de fazer publicidade ao facto de a Crosta (a editora da Beatriz) estar na Feira do Livro de Lisboa, no pavilhão da Tigre de Papel (H11). Aproveitem para comprar, com um desconto favorável, o óptimo O Cogumelo no Fim do Mundo, de Anna Tsing, e o provocante Como Rebentar Um Oleoduto, de Andreas Malm.
Por hoje é tudo. As palavras são minhas. A revisão é da Beatriz Marques Morais.
Tenham uma boa semana. Até ao próximo Diga-se de Passagem.
No sentido de bucólica e rural, já percebi que a definição «oficial» é diferente da (ou mais restrita do que a) minha.
E foi também através da obra de Reynolds que descobri Gas, músico de techno que dá o pontapé de saída à compilação.
Ainda tenho a de Todd Webb para ver na Gulbenkian, em Lisboa.


