Fantasmas de Natal, parte II
Meia-dúzia de pesadelos no sapatinho
No ano passado por esta altura também escrevi sobre fantasmas, mas estava a ir atrás da minha adoração de criança por Scrooged, a adaptação de A Christmas Carol com Bill Murray, e de jovem adulto por «Fairytale of New York», cantado por dois mortos precoces (portanto, potenciais espectros).
Não fazia ideia de que passado um ano estaria aqui acompanhado por outros fantasmas natalícios.
Acho que nunca me tinha dado conta da curiosa tradição inglesa1 de se contarem histórias assustadoras nas vésperas do Natal.
Sabia da tendência dos ingleses em tornar as coisas mais corriqueiras em exercícios de amedrontamento — veja-se o vídeo institucional sobre os perigos de afogamento narrado por Donald Pleasance —, mas julguei que deixassem as festividades natalícias em paz. Não.
Ali por volta dos anos 70 do século passado, as ghost stories passaram a ser transmitidas em horário nobre na televisão britânica, em formato telefilme, muitas vezes na própria noite de Natal.
E não se pense que eram histórias delicodoces, «apropriadas» à quadra. Pelo contrário, eram bem sinistras, com finais absolutamente terríveis, dilacerantes. Normalmente, acabava tudo em desgraça ou, na melhor (?) das hipóteses, em loucura.
Imagina-se a quantidade de crianças traumatizadas por estes pequenos filmes (a maioria tinha cerca de 50 minutos). Uma delas, o actor, argumentista e realizador Mark Gatiss, fez questão de que a tradição não desaparecesse, assegurando que haveria todos os anos nova A Ghost Story for Christmas. Para 2025 está anunciado The Room in the Tower, baseado num conto de E. F. Benson.
No entanto, dessas mais recentes não posso falar muito, que não as vi. Posso, sim, recomendar quatro telefilmes realizados entre os anos 60 e 80 bastante perturbadores e um filme que não é tele nem assim tão aterrador2.
Whistle and I’ll Come to You
Há uns tempos comprei uma pequena edição da Vintage com contos de fantasmas de M. R. James na livraria Good Company, ali ao pé da Culturgest, em Lisboa. Durante um largo período fez parte da minha pilha de livros por ler. Tinha receio de ter medo (sou muito assustadiço) e imaginei que não fosse gostar muito. Estava redondamente enganado. O humor de James só encontra paralelo na imaginação para monstros e fantasmas. O seu Oh, Whistle, and I’ll Come to You, My Lad serviu de base para a minha primeira escolha. A adaptação a preto-e-branco de Jonathan Miller, que truncou o título — ficando-se por Whistle and I’ll Come to You —, é mais mordaz do que a história de James, mas o final cala mais fundo.
A Warning to the Curious
Curiosamente, Whistle and I’ll Come to You não foi transmitido no Natal, mas deu o mote à série A Ghost Story for Christmas, iniciada por Lawrence Gordon Clark. Para os seus telefilmes natalícios, o realizador também pegou em contos de M. R. James. A Warning to the Curious é dos mais tenebrosos e a adaptação com Peter Vaughn faz-lhe inteira justiça. Gordon Clark, que aparentemente ainda está vivo, aparece a falar num documentário já antigo sobre James narrado pelo acima citado Mark Gatiss, brilhantemente intitulado Ghost Writer.
The Signalman
A ideia de que as ghost stories de Natal até são fofinhas virá, com certeza, de A Christmas Carol3, de Charles Dickens. The Signal-Man, publicado depois de o escritor ter estado envolvido num acidente de comboio com várias vítimas mortais, é tudo menos reconfortante. Não li o conto, mas é o que posso depreender da notável adaptação de Gordon Clark com o sempre excelente Denholm Elliott. Se virem apenas uma das minhas sugestões, que seja esta. É incrível (e foi lançada em DVD com as restantes entradas de A Ghost Story for Christmas).
The Woman in Black
Creio que soube da existência de Nigel Kneale através de uma crónica de Rogério Casanova que já nem consigo encontrar na Internet. Kneale escreveu um conjunto de séries e filmes para a televisão inglesa entre os anos 50 e 90, num território entre o sobrenatural e a ficção científica. A sua série mais conhecida é Quatermass and the Pit, sobre a qual escrevi noutra vida. Foi ele que adaptou o romance The Woman in Black, de Susan Hill, e o entregou a Herbert Wise4 para filmar. Realizado na transição dos anos 80 para os anos 90, The Woman in Black (não confundir com o remake de 2012, com Daniel Radcliffe) faz-me sentir em casa. Chamemos-lhe cozy horror (apesar de meter mesmo medo; já disse, sou assustadiço).
The Amazing Mr. Blunden
De todas as sugestões é a que gosto mesmo. The Amazing Mr. Blunden, de Lionel Jeffries, é um filme feito para as salas de cinema, embora não se dê muito por si (os telefilmes têm quase todos melhores «valores de produção»). A realização é canhestra e também não se pode dizer que seja muito bem escrito (as personagens fazem várias coisas ilógicas para que a narrativa possa continuar), mas tem uma premissa interessantíssima (e muito mal aproveitada): os fantasmas afinal são viajantes no tempo. Uma curiosidade: Lynne Frederick, que interpreta a jovem protagonista, viria a casar com Peter Sellers e seria sua viúva. Ela própria morreu muito nova.
Uma pitada de auto-promoção
Há mais ou menos três anos, quis fazer uma curta-metragem com viajantes no tempo e doppelgängers. Acabei a filmar a minha rua durante uma hora, por alturas do Natal. Depois escrevi uma narração, que eu mesmo li.
Não fiquei satisfeito nem com as imagens nem com o texto e nunca mostrei publicamente o resultado. Mas quando comecei a pensar nesta edição do Diga-se de Passagem, percebi que O Viajante também é uma ghost story, à sua maneira.
Aqui fica, então, a minha história de fantasmas de Natal. Aviso-vos que é um plano único de mais de vinte minutos (e que não mete medo nenhum, mesmo a quem é muito assustadiço como eu).
Por hoje é tudo. As palavras são minhas. A revisão é da Beatriz Marques Morais.
Tenham uma boa semana (e Bom Natal, com ou sem fantasmas). Até ao próximo Diga-se de Passagem.
A tradição será de todo o norte da Europa, nós é que não a temos cá em baixo no sul. Ou então desconheço-a.
A maioria consegue-se encontrar no YouTube, basta pesquisar.
O indício que tinha de que os ingleses gostam de misturar Natal e fantasmas, insuficiente, no entanto, para que tivesse juntado dois mais dois.
Wise foi o realizador de I, Claudius, grande candidata a melhor série de sempre.



Texto de Natal, para todo mundo que sente um pouco de saudade da infância: https://open.substack.com/pub/renataseldin/p/o-natal-da-minha-infancia?r=3rcxil&utm_medium=ios
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