Amêndoas (tardias) da Páscoa
Umas sugestões não-alusivas à quadra
Tinha ideia de escrever sobre um tema completamente diferente1, mas o bom tempo, o fim-de-semana alargado e as celebrações da Páscoa interpuseram-se.
Para não (vos) faltar mais uma semana, ofereço-vos, ao invés, três singelas sugestões que não têm que ver com a quadra pascal2.

Como Rebentar Um Oleoduto, de Andreas Malm
Depois do sucesso de O Cogumelo no Fim do Mundo. Viver nas Ruínas do Capitalismo, de Anna Lowenhaupt Tsing3, a Crosta Editores, da Beatriz e do Henrique, volta a atacar.
Apesar de só ter lido as primeiras cinquenta páginas de Como Rebentar um Oleoduto (o livro chegou-me às mãos anteontem), deu para perceber três coisas: a Crosta reforça a sua linha editorial dedicada à ecologia; o livro de Andreas Malm é bem mais panfletário e directo do que o de Tsing, dir-se-ia um manifesto; e tem o potencial de originar discussões acesas (e chatear muita gente).
À pergunta «quais são os limites da luta climática?», Malm responde: apenas a vida humana. Para ele, a destruição da propriedade é mais do que justificável, é uma necessidade. Mesmo que muitos, incluindo a maior parte dos activistas pelo clima, cataloguem esse tipo de actos como terroristas.
Cinéfilo que sou, quando soube do que tratava o livro, vieram-me logo à cabeça dois filmes: Night Moves, de Kelly Reichardt, e First Reformed, de Paul Schrader. O segundo parece ser uma defesa da violência pela causa climática, enquanto o primeiro levanta muitas dúvidas sobre a sua justeza.
A edição portuguesa de Como Rebentar Um Oleoduto conta com um posfácio novinho em folha escrito pelo cada vez mais pessimista Andreas Malm. A apresentação do livro é já neste sábado, dia 11 de abril, às 15h00, no BOTA, em Lisboa.
Hard Hearted Woman, de Ora Cogan
Fui atrás de duas recomendações desta playlist do Nuno Costa Santos.
Uma delas foi The Reds, Pink and Purples, banda de um músico só que soa como os Guided by Voices se o vocalista fosse o Mark Kozelek (com a voz mais sofrida). Nunca tinha ouvido (nem nunca tinha ouvido falar), portanto não sinto o enfastiamento do Nuno com a previsibilidade da sua música; pelo contrário, ando a gostar de escutar The Past is a Garden I Never Fed, o álbum do ano passado.
A outra bateu-me mais forte. Ao ouvir «Honey», primeira canção do novo álbum de Ora Cogan, eu, que demoro a perceber se gosto ou não de música nova, soube imediatamente que queria conhecer o resto de Hard Hearted Woman.
Também não conhecia Ora Cogan de lado nenhum. E, quando quis pesquisar por ela, nem sequer encontrei uma página da Wikipedia. No entanto, é daquelas artistas que podem muito bem estar prestes a explodir, embora nestas coisas nunca se possa ter certezas. Só posso garantir que estou muito feliz de a ter encontrado (Obrigado, Nuno!).
Indo outra vez pelas comparações, que é a maneira que sei de escrever sobre música, Ora Cogan aproxima-se da pop sofisticada e aveludada de Weyes Blood, mas com uma veia gótica muito explícita. Além da influência dos The Cure, sente-se ali pozinhos da Nico mais experimental e de um certo pós-punk — «Division» parece pedir o Joy (embora não seja nada alegre).
Li algures que as letras de Ora Cogan se debruçavam sobre a crise climática, mas já não sei onde foi e não estive para ouvir as letras (prazer que dispenso com grande maioria da música) — era bom que fosse verdade para haver uma ligação com a entrada anterior.
Le gang des Bois du Temple, de Rabah Ameur-Zaïmeche
Depois de um livro e de um disco, quis escolher um filme. Podia escrever sobre Blue Moon, de Richard Linklater, que vi há poucos dias.
E dizer que adoro o Sardi’s como cenário de onde praticamente não se sai, o contexto do teatro musical norte-americano dos anos 40, as personalidades do meio artístico nova-iorquino, as interpretações dos actores — o óbvio Ethan Hawke, mas também Bobby Cannavale, impecável como sempre.
E dizer, ao mesmo tempo, que torço o nariz aos constantes piscares-de-olho (Stuart Little, George Roy Hill, Stephen Sondheim) e sobretudo à interacção entre Lorenz Hart e a personagem (inventada) de Margaret Qualley, o ponto franco do filme (quando era suposto ser o oposto).
Mas está prestes a sair dos cinemas portugueses e não queria «gastar» uma entrada inteira com ele. Aproveito, assim, para falar também de Le gang des Bois du Temple, que está disponível até sexta no Le Cinéma Club.
O filme de Rabah Ameur-Zaïmeche inspira-se supostamente nos policiais de Jean-Pierre Melville. A mim, leva-me ao cinema de Johnnie To (à obra-prima Cheung foh/The Mission) e aos thrillers abstractos de Thomas Arslan — Im Schatten/Nas Sombras e Verbrannte Erde/Terra Queimada (que podem ser vistos na Filmin).
Não sendo má, a longa-metragem de Ameur-Zaïmeche fica-se um pouco pelo esboço, tem as costuras à mostra (passe a mistura de metáforas). Acaba por dar é vontade de rever os filmes que faz lembrar.
Por hoje é tudo. As palavras são minhas. A revisão é da Beatriz Marques Morais.
Tenham uma boa semana. Até ao próximo Diga-se de Passagem.
Este mês será alegrado por um ou outro texto sobre a morte.
De qualquer forma, mesmo que escrevesse sobre algo alusivo à Páscoa — como fiz no ano passado, quando recordei um dos meus filmes preferidos, The Ten Commandments, de Cecil B. DeMille (versão 1956) — já não iria a tempo.

